Figuras Metálicas

01/06/2005 15:34
Minha antologia poética Figuras Metálicas foi lançada no dia 15 de junho de 2005, quarta-feira, às 19h30, na Casa das Rosas, situada na Avenida Paulista, n. 37. Leia abaixo o texto de apresentação escrito por João Alexandre Barbosa:


"Escrevendo sobre Mallarmé, Valéry levanta uma questão de interesse para qualquer aproximação à criação poética: a relação entre esta criação e as origens mais remotas das funções da linguagem humana.

É que a poesia, diz ele, vincula-se, sem nenhuma dúvida, a algum estado dos homens anterior à escritura e à crítica. Encontro, pois, um homem muito antigo em todo poeta verdadeiro: ele bebe ainda nas fontes da linguagem; ele inventa "versos", um pouco como os primitivos melhor dotados deviam criar "palavras", ou ancestrais de palavras.

Em todo o poema bem realizado, o leitor há de sentir a palavra como se ela surgisse para uma nomeação originária, transformando o que se nomeia em algo novo por força da própria nomeação, conferindo ao poeta características de um oficiante de ritual em que dominassem os poderes da memória (pela recuperação das fontes da linguagem) e da magia -pela criação de uma nova realidade que é a poética.

Daí a importância das materialidades sonora e visual que, somente depois de organizadas num estrutura passada pelos rigores da sintaxe e da semântica, impõem um outro tipo de racionalidade que é o poema. É a qualidade encantatória da poesia que faz pensar no poeta como herdeiro daqueles primeiros homens que inventavam palavras para a nomeação espantada do mundo.

Creio que a poética desta antologia de Claudio Daniel, vinte anos de uma travessia, tem como dominante aquela qualidade. O que significa dizer que o leitor, lendo este livro, é convidado a se deixar envolver por tudo o que é reverberação de som e imagem, abdicando da objetividade e mergulhando no tumulto das sensações gravadas na pele das palavras.

Em todos os poemas, extraídos de três livros publicados entre 1992 e 2001 (Sutra, Yumê e A sombra do Leopardo) e do inédito Pequenas aniquilações, passa uma inquietação que, sendo o registro daquele jogo de encantamento referido, mantém os textos nos tensos limites do indizível.

Por onde são convocados todos os valores sensíveis da linguagem mas, atenção! sob o controle estrito de uma consciência acesa pelos valores da história, seja a circunstancial, seja a da própria linguagem da poesia.

Daí ser possível, sobretudo nos primeiros textos, realizar os entrecruzamentos de culturas pela utilização literal de trechos de obras orientais.

É, mais uma vez, a lição que se pode extrair do trabalho verdadeiro com a criação: o encanto da poesia, como queria Valéry ao chamar de Charmes o seu grande livro de 1922, e como está neste livro, é sempre dependente do trabalho com que se enfrenta o próprio enigma da invenção."

Nota: Figuras Metálicas será publicado pela editora Perspectiva, na coleção Signos, que foi dirigida por Haroldo de Campos, e reunirá poemas de meus livros Sutra, Yumê e A Sombra do Leopardo, além do inédito Pequenas Aniquilações. Esta obra é o resultado de vinte anos de trabalho poético.
enviada por Claudio Daniel



16/03/2004 12:45

O José Arnaldo Villar escreveu o seguinte comentário sobre meu livro:

Claudio Daniel apresenta em Figuras Metálicas o registro de sua “travessia poética”, percorrida ao longo de vinte anos de labor criativo. Comparecem aqui poemas escritos entre 1983 e 2003, incluídos nos livros Sutra, Yumê e A Sombra do Leopardo, mais o inédito Pequenas aniquilações. Este conjunto de composições revela um autor com voz própria, singular e inquieta. Dialogando com a Poesia Concreta, o Neobarroco, o Simbolismo e o Oriente, realizou uma fusão onde são evidentes as imagens sonoras, que não raro perturbam ou dissolvem o sentido aparente em curiosas associações de termos (“Água-de-serpente para esquecer jamais esta música de peles”). Os poemas são reunidos em ciclos ou séries, como se fossem peças de um quebra-cabeças ou verbetes de uma enciclopédia imaginária. Aqui, as palavras não se curvam à função passiva de apenas retratar ou traduzir o mundo das coisas, mas constituem uma realidade própria, obsessiva. Cada poema é um organismo, com rigorosa concepção estrutural, que distancia-se da lógica linear, discursiva, por meio da elipse, da analogia e da colagem semântica. Este caminho de desfiguração dos vocábulos mimetiza a perda de sentido dos valores culturais em nossa época, regida pela loucura do mercado e da mídia, ao mesmo tempo que aponta para a criação de outras realidades, por meio da poesia.

José Arnaldo Villar


Leiam, na edição de março do Suplemento Literário de Minas Gerais, quatro poemas de meu próximo livro, com ilustrações do artista plástico Miguel Gontijo.

enviada por Claudio Daniel



29/12/2003 13:32

Visite também meu novo blog, Cantar a Pele de Lontra. Veja o endereço aí ao lado...


Figuras Metálicas

Conheça alguns poemas do livro Figuras Metálicas, de Claudio Daniel, que será publicado em 2004, pela editora Perspectiva, na coleção Signos.


NO OLHO DA AGULHA

Tatuar silêncios como formigas.
Afogar os relógios
numa pálpebra.
Vestir o grito com a pele
do escaravelho.
Torcer os músculos da face
em perplexidade.
Cruzar a via absurda
das unhas, desorientado,
obscuro, recurvado
sobre as nádegas.
Saber que toda flor é ridícula,
e mesmo assim cultivar
o minério,
a dor,
a surda epilepsia.
Esquecer o próprio nome,
e sovar a terra
até a exaustão.
(Fosse apenas uma canção de colheita,
você diria amor e outras
palavras fáceis.)
Com o riso estúpido do camelo,
viajar ao olho
da agulha,
labiríntico, insano,
acreditando que toda história é um ácido.
Depois cauterizar a ferida,
aceitar o reflexo,
o simulacro,
lembrar-se
da semente antes do pão.
Tayata gate gate
paragate parasamgate
boddhi soha.



2002


DIBUJO
(Kundry)


Eco de mandíbulas e parietais em turbulência de ganidos.

Contar
o vento,

cantar a pele
de lontra

serpente bípede
ou pterodáctilo

— para a confluência
de pianos no jardim.

Folha de relva desfolha meu rosto —
milagre da verde

aparição (jade,
o corvo)

em óssea carícia ou trumpete para a trama
de futuros
indecifráveis.

A história sangra dentes-de-dragão fábula muda
ou surda
diáspora

— que não esquece,
nunca irá esquecer.

Eis o drama o libreto dessa ópera configurada
que vira a página
— pétala —
até afogar-se
em ramalhete
de azuis-
leão.


2001/03


FORMIGA

Pequeno dragão
doméstico.

Cabeça grávida
de hibisco.

Rústico abdome-
cogumelo.

Escava o incerto
dos dias,

para a trilha
vertical

de farelo, fúria
e folhas.

Carrega seus mortos
nas costas,

com precisa
geometria

de fábrica
fúnebre.

2002

(Publicado na edição de março/04 do Suplemento Literário de Minas Gerais)


CABEÇAS DE FORMIGA


Como este breve sentimento de decomposição, falanges
à maneira
do escuro.
Linha tênue de folhas recortadas
e cabeças
de formiga.
Pétalas roxas,
um tipo de bolor.
Passos escuros
no jardim.
Ritmos podres
de cadela.
Fumo branco,
idéias pesadas
e algo que se desdobra no espaço
curvo
em aromas
de tantálico
negrume.

— Nenhuma música, ali; nada além da carne
dos cogumelos
e seu escarro.


2003


TRAÇA


(Entre fólios de ciência antiga e espectros de monjas nuas desencarnadas.)

(Olhos opiados afundam em partituras da Outra Margem.)

(Ruge um leão hipnótico.)

(Letras sangradas na pele de carneiro. Figuras metálicas em expansão.)

(Palavras criam realidades.)

(Traças cavam sendas no papel.)

(Toda leitura é uma cicatriz.)



2002
(Publicado no n.5 da revista Coyote, outono/03)


PULGA

Quando enlouquece na hora vermelha — surda e ascética, em gago contorcionismo — labora semeadura de pústulas, até saciar a fome.

2002

(Publicado na edição de março/04 do Suplemento Literário de Minas Gerais)



BARATA

Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sincopados de ancas revelam saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d’água escorrem pela concha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco espesso da cavidade e atrai suspiros plásticos, romanescos, fluindo como sangue menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o novo capítulo da novela. Seminuas têm medo de barata.

2002

(Publicado na edição de março/04 do Suplemento Literário de Minas Gerais)



PIOLHO

Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro.

(Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada.

Lady sings the blues para vocal e piano. Retrato de Wilde na parede e tapeçarias com toscos motivos de gnomos de barba pontuda.

O business man engole nacos de carne vermelha entre chamadas ao celular e citações do Economist sobre a crise da balança comercial.

Tabaco provoca câncer. Trabalho conduz à liberdade. Café com creme e canela. A metafísica do compromisso institucional.

Todo homem de negócios é sério. Tem sapatos sérios de couro italiano e óculos sérios com aro de tartaruga. New York, New York.

Bico de papagaio na coluna recurvada. Folders de lançamento do novo produto. Brieffings para a mídia. Um calor estival, quase Saara.

Relógio digital marcando quinze minutos para Qualquer Tempo. Uma vaga sensação de arritmia (fadiga ou problemas coronários).

Executivos sempre usam marcapasso, água-de-colônia e longas meias pretas.

2002


PARAFUSO, ESCARAVELHO


Água-de-serpente para esquecer jamais esta música de peles.

Quem conta fêmures e pêlos desalinhados
da fêmea
apodrecida.

Mais negro do que a negra mariposa pedra do esquilo
roendo restos
de não.

Estamos cáusticos
e nus.

Corpo e palavra são flores pontiagudas
que laceram.

Você sempre diz o azul-granizo:

céspede
ou áspide
que anoitece.

Ser o lobo e mais que isso: ser o Lobo do vermelho
tardio em
jades de ninfeta:

aqui escrevo ilha — facas de pomba cega,
estrela morta
em diapasão

ou luas
de capricórnio?

Tudo o que eu amo
— sim —
corre no tempo com a velocidade do parafuso
e do escaravelho.

2003
(Publicado no caderno Mais! do jornal Folha de S. Paulo, em 30/11/03)


Chave de fenda

Pactuar com jaguares e seus caninos, sol ácido na tela de cristal líquido. Tudo são imagens mentais, as flores de plástico no vaso da sala e os olhos miúdos do nômade tunisiano. Tudo é inútil. Perfurar a parede com a furadeira, limpar suavemente o pó da superfície e fazer o encaixe do parafuso, na altura calculada. Pensar em topázios fecais, em leões alados e numa princesa-serpente de enormes tetas, vestida de luz violeta. Torcer os punhos, os calcanhares. Revirar os olhos. Parafusar com a chave de fenda a cabeça de metal do touro minúsculo e então pendurar no lugar do retrato a sua própria medula óssea, recém-arrancada.

2002
(Publicado no n.5 da revista Coyote, outono/03)


Secador de cabelos

Um jogo de escorpiões apodrece as horas. Cabelos e olhos para os corvos; fome obscura no couro cabeludo. Toda superfície inquieta-se, em febre surda ou gagueira. Impossível não pensar em jardim de espelhos, cristais de vômito, gravuras de dragão. Folhear revistas de desertos africanos, contemplar as folhas amareladas do outono e pensar em algo profundo que disse Giordano Bruno. Sentir o cheiro vermelho do esmalte, como sangue para coagulação, até um movimento preciso de escova que ceifa a lua com os polegares. All you need is love.

2002


Textos de quarta-capa:

Cada poema de Claudio Daniel é uma poética implícita. Essa poética (sem maiúscula) evita por todos os meios o estrondo, a premeditada obscuridade. Constitui, labareda quieta, epifania inquietante, uma visão, em verdade enganosa, pois sua aparente singeleza oculta planos e camadas superpostas que obrigam o leitor a revolver, redimensionar e transpor instâncias de obscuridade e luz.

— José Kozer


Em Claudio Daniel, o motivo poético central, em sua relação com a poesia brasileira, é reconstituir a estrutura verbal, encarnar o osso verbal que, em seu polimento maior, fez surgir a vertente Cabral/poesia concreta. Porém, não se trata de um retorno, senão de uma contribuição a um ordenamento da mesma ação.

— Eduardo Milán


Sobre o livro:

Figuras Metálicas é uma coletânea, ou "travessia poética", dos vinte anos de trabalho de Claudio Daniel (1983-2003). Reúne uma seleção dos poemas publicados nos três primeiros livros do autor: Sutra (1992), Yumê (1999) e A Sombra do Leopardo (2001), mais o inédito Livro de Imagens. No final da obra, constam resenhas e textos críticos sobre o poeta, assinados por Júlio Castañon Guimarães, Jesus Barquet, José Kozer, Eduardo Milán e Ademir Assunção.


Sobre o autor:

Claudio Daniel, poeta, tradutor e jornalista, nasceu em São Paulo (SP), em 1962. Publicou os livros de poesia Sutra (edição do autor, 1992), Yumê (Ciência do Acidente, 1999) e A sombra do leopardo(Azougue Editorial, 2001), este último vencedor do prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT. Traduziu, em parceria com Luiz Roberto Guedes, poemas do cubano José Kozer, reunidos em três antologias: Geometria da água & Outros Poemas (Fundação Memorial da América Latina, 2000), Rupestres (Tigre do Espelho, 2001) e Madame Chu & Outros Poemas (Travessa dos Editores, 2003). O autor publicou também Estação da Fábula, com traduções do uruguaio Eduardo Milán (Fundação Memorial da América Latina, 2002), Prosa do que está na esfera (Olavobrás, 2003), coletânea de poemas do dominicano León Félix Batista, que organizou e traduziu com Fabiano Calixto, e a antologia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil (Landy, 2002), este último em co-autoria com Frederico Barbosa.


enviada por Claudio Daniel






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